DestinoSC
Blog Cultura e pontos turísticos

A rota da herança imigrante em Santa Catarina: alemã, italiana, ucraniana, açoriana

2026-06-085 min de leituraDestinoSC
Igreja ortodoxa ucraniana de madeira com cúpulas em bulbo no interior rural de Santa Catarina Igreja ortodoxa ucraniana de madeira com cúpulas em bulbo no interior rural de Santa Catarina

Um circuito temático de cinco dias por quatro comunidades fundadoras, com 14 paradas concretas e comentários honestos sobre o que cada cidade realmente preserva.

O tema, e por que ele funciona aqui

Santa Catarina foi colonizada em quatro ondas distintas e cada uma deixou cidades que ainda funcionam como lugares reconhecidamente diferentes. Os açorianos chegaram primeiro, em 1748, e seus descendentes dominam o litoral de Florianópolis a Laguna — dá para ouvir no sotaque, ver nos barcos de pesca e comer nas cozinhas voltadas à tainha. Os alemães chegaram a partir de 1850 e construíram Blumenau, Joinville, Pomerode e o Vale Europeu. Os italianos vieram a seguir, a partir de 1875, para o médio Vale do Rio do Peixe e as cidades da Serra. Ucranianos e poloneses vieram depois, na virada do século XX, e ocuparam o interior oeste e áreas do Planalto Sul.

Este roteiro visita as quatro em cinco dias, atravessando o estado em uma diagonal aproximada do litoral ao oeste e de volta. Não é o jeito mais rápido de conhecer nenhuma tradição em separado e a quilometragem é séria: cerca de 950 quilômetros pelo circuito, quase tudo em rodovias de pista simples. O que você ganha é a fotografia honesta — que Santa Catarina não é uma cultura, mas quatro, que elas foram separadas de propósito pelo sistema imperial de concessão de terras, e que mesmo 150 anos depois uma cidade fundada por pomeranos não se parece, não cozinha e não celebra nada do jeito que uma vila açoriana a 200 quilômetros de distância. Este é o roteiro para quem lê, não para quem quer tarde de praia.

Dia 1: costa açoriana — Ribeirão da Ilha e Santo Antônio de Lisboa

Comece em Florianópolis, fundada como Desterro por açorianos em 1748, que ainda preserva duas vilas de pesca mostrando como era o litoral antes do turismo: Ribeirão da Ilha, no sul, e Santo Antônio de Lisboa, no norte. As duas ficam a 30 minutos de carro do centro. Ribeirão é a mais preservada — uma única rua principal de casas caiadas com janelas azuis, a igreja de Nossa Senhora da Lapa de 1806 no meio, e meia dúzia de restaurantes de ostras que cultivam o marisco a 200 metros da costa. Almoçar no Ostradamus é a refeição-referência (R$180 a R$240), mas os restaurantes menores ao lado, entre R$95 e R$130, servem as mesmas ostras das mesmas águas.

Santo Antônio à tarde é uma visita mais curta, no máximo 90 minutos. A vila se estende por uma única rua com a igreja de Nossa Senhora das Necessidades (1750) numa ponta e uma pequena orla na outra. É onde a tradição do boi-de-mamão, a dança popular açoriana com o boi de faz-de-conta, ainda é apresentada em festas — o pequeno museu municipal tem trajes e instrumentos. Jantar de volta ao Centro de Florianópolis, e depois dormir em qualquer um dos hotéis de faixa média da Beira-Mar Norte por R$380 a R$520. Amanhã é o dia mais longo de estrada da viagem, e você vai querer sair cedo.

Dia 2: Vale Europeu alemão — Blumenau a Pomerode

Saia de Florianópolis até as 07:30 pela BR-101 no sentido norte, e depois oeste pela BR-470 até Blumenau. São 145 quilômetros e duas horas e meia de viagem. Dedique a manhã ao roteiro a pé pelo centro histórico de Blumenau — o Museu da Família Colonial é a parada-chave, a R$12 e 90 minutos, porque explica a diferença entre o padrão de assentamento alemão (lotes cercados de 25 hectares nas Kolonien) e o padrão açoriano (aglomerados de vila em torno de uma igreja) que você viu ontem. Essa diferença estrutural é a razão de Blumenau e Ribeirão da Ilha não se parecerem em nada, apesar de estarem a 150 quilômetros uma da outra.

À tarde, dirija 30 quilômetros ao norte até Pomerode, que se diz a cidade mais alemã do Brasil e, por incrível que pareça, é. Cerca de 90 por cento da população é de origem alemã, mais ou menos um terço ainda fala o dialeto pomerano em casa, e a arquitetura é enxaimel sem aquele ar de reconstrução turística do centro de Blumenau. O Museu Pomerano e o Museu Ornitológico cobrem, respectivamente, a história local e um acervo de aves realmente interessante. Durma na própria Pomerode em uma das pequenas pousadas em torno da Rua XV de Novembro, R$260 a R$380 a diária, e coma marreco recheado no restaurante que sua pousada indicar.

Dia 3: interior italiano — Rio dos Cedros e Nova Trento

A zona de colonização italiana começa mais ou menos 40 quilômetros a oeste de Pomerode. Rio dos Cedros e Rodeio são as duas cidades mais próximas que valem uma parada, ambas pequenas (menos de 12 mil habitantes) e ambas centradas em colonos italianos que chegaram por volta de 1880 vindos do Trentino. A arquitetura é diferente das cidades alemãs — mais simples, mais em alvenaria que em enxaimel, próxima do que se veria numa vila do norte da Itália na mesma época. O almoço é polenta, salame e galinha ao molho em qualquer uma das cantinas familiares ao longo da SC-477; espere pagar de R$75 a R$120 por uma refeição séria com vinho local.

À tarde, siga para o sul até Nova Trento, 90 quilômetros de pista simples pelo Vale do Rio Tijucas que levam cerca de duas horas. Nova Trento é o centro católico de peregrinação do estado — Madre Paulina, primeira santa canonizada do Brasil, viveu ali — e o Santuário Santa Paulina, acima da cidade, atrai um milhão de visitantes por ano. É inevitavelmente turístico. A herança italiana mais interessante está nos povoados menores fora da cidade: Vígolo, Claraíba e a pequena comunidade agrícola ao redor de Aguti. Durma em Nova Trento em uma das pousadas voltadas à peregrinação por R$220 a R$340 a diária, mais baratas que as equivalentes em Pomerode porque o mercado é outro.

Dia 4: Serra italiana e as cidades do vinho — Treze Tílias e adjacências

O Dia 4 sobe a serra e vai para o interior. De Nova Trento até Treze Tílias são 220 quilômetros via Curitibanos, cerca de quatro horas pela BR-282 e SC-350. Treze Tílias é austríaca, não italiana — fundada em 1933 por colonos tiroleses sob o chanceler Dollfuss e ainda arquitetonicamente fiel ao estilo alpino austríaco, com sacadas, fachadas pintadas e telhados íngremes. É pequena (7 mil habitantes) e se caminha em 90 minutos. O Museu Municipal Andreas Thaler cobre bem a história de fundação, R$8 a entrada.

De Treze Tílias, se der tempo, siga 40 quilômetros até Piratuba para a cidade de águas termais, ou desça em direção a Videira para o tour na vinícola Perini e para as vilas italianas do médio Vale do Rio do Peixe. Isto é país do vinho — a região vinícola mais alta e fria do Brasil produz Sauvignon Blanc e Pinot Noir acima de mil metros, e as degustações saem mais em conta aqui que em São Joaquim, entre R$40 e R$80. Durma em Treze Tílias ou Videira, ambas com hotéis de faixa média entre R$280 e R$420. O jantar é uma fusão austríaco-italiana — spätzle e canederli no mesmo cardápio — que parece forçada e não é.

Dia 5: oeste ucraniano, e o fechamento do circuito

A herança ucraniana e polonesa em Santa Catarina se concentra no extremo oeste, em torno de Itaiópolis, Papanduva e Mafra, distantes demais para este roteiro de cinco dias cobrir com honestidade sem cortar outra coisa. A parada de compromisso é a pequena comunidade de Iracema, perto de Canoinhas, a 180 quilômetros ao norte de Videira, onde uma igreja ortodoxa ucraniana em funcionamento, com cúpulas em bulbo, e um centro comunitário ucraniano ainda operam. A viagem leva três horas em pista simples; a visita, 90 minutos, incluindo uma parada no centro comunitário se estiver aberto (domingos após a missa é a melhor hora). Pierogi e holubtsi ucranianos são servidos em alguns restaurantes locais por R$45 a R$70.

De Canoinhas até Florianópolis são 260 quilômetros pela BR-116 e BR-101, mais ou menos quatro horas e meia. É um dia final longo — 440 quilômetros no total — e, se parecer demais, quebre com uma noite em Joinville, outra cidade de herança alemã que arredonda a história da imigração. Joinville tem hotéis de faixa média decentes entre R$320 e R$480, e o Museu Nacional de Imigração é o único melhor acervo sobre toda a história da imigração no estado. Acrescentar uma noite em Joinville transforma isto num roteiro de seis dias, e é a versão que eu recomendaria de verdade se você tiver tempo.

O que este roteiro deliberadamente não cobre

O Contestado — a guerra civil de 1912 a 1916 entre colonos caboclos e o Estado federal — merece um roteiro próprio e não está incluído aqui, apesar de ser o capítulo mais escuro e importante da história do interior do estado. Os comerciantes libaneses e sírios que colonizaram Chapecó e Xanxerê na década de 1930 também estão ausentes; a presença deles é real, mas mais difícil de visitar como viajante temático, porque se integraram a cidades já existentes em vez de fundar novas. A colônia japonesa de Frei Rogério, uma das histórias fundadoras mais surpreendentes do estado, fica igualmente fora da rota.

O que o roteiro cobre, e cobre honestamente, são as quatro maiores comunidades fundadoras na ordem em que chegaram. Ele oferece contato suficiente com cada uma para você entender por que a culinária, a arquitetura e o calendário religioso do estado são tão variados, e por que um blumenauense e um pescador de Ribeirão podem sentir de verdade que vivem em países diferentes. Cinco dias é o mínimo; seis com Joinville é melhor; sete com uma parada apropriada no oeste ucraniano é a versão completa. Menos que isso e você está escolhendo duas comunidades e chamando de tema, o que não é a mesma viagem.

Reserve enquanto lê Diária medianaR$281 Região mais barataR$161 Hotéis5080 Encontrar um hotel

Antes de reservar

As perguntas que as pessoas fazem sobre Blumenau, respondidas com os números deste mês.

Isso é uma viagem de carro ou dá para fazer de ônibus?

É uma viagem de carro. A rede de ônibus intermunicipais chega a Blumenau, Pomerode, Videira e Canoinhas, mas os horários de conexão são impossíveis — você gastaria dois dos cinco dias só em rodoviárias. Alugue um carro em Florianópolis. Combustível e pedágios para o circuito somam cerca de R$550 para um sedã pequeno.

Qual a melhor época do ano para a rota da herança imigrante?

De abril a junho e de setembro a novembro. O verão (dezembro a fevereiro) é quente nas cidades do interior e os trechos serranos perdem as vistas nítidas para a bruma. O inverno (julho, agosto) é confortável nas cidades, mas as estradas da Serra podem congelar; verifique as mínimas noturnas se for incluir Treze Tílias e Videira.

As cidades realmente ainda falam as línguas de origem?

Em bolsões. O pomerano ainda é falado por moradores mais velhos em Pomerode e na área rural de Blumenau; o dialeto trentino sobrevive em algumas casas de Rio dos Cedros; o ucraniano é usado em cultos em torno de Canoinhas e Iracema. O português é universal e as línguas são de herança, não faladas no dia a dia pela maioria abaixo dos 40.

As cidades alemãs são só parque temático hoje?

O centro de Blumenau foi reconstruído em estilo enxaimel de propósito e soa como cenário de patrimônio. Pomerode é mais genuinamente preservada — arquitetura, dialeto e comida ainda são tradições vivas, não produto turístico. Joinville fica entre as duas. Se você quer a cidade alemã menos performática, vá a Pomerode.

Leituras recomendadas

Todos os posts