A rota da herança imigrante em Santa Catarina: alemã, italiana, ucraniana, açoriana
Igreja ortodoxa ucraniana de madeira com cúpulas em bulbo no interior rural de Santa Catarina
Um circuito temático de cinco dias por quatro comunidades fundadoras, com 14 paradas concretas e comentários honestos sobre o que cada cidade realmente preserva.
O tema, e por que ele funciona aqui
Santa Catarina foi colonizada em quatro ondas distintas e cada uma deixou cidades que ainda funcionam como lugares reconhecidamente diferentes. Os açorianos chegaram primeiro, em 1748, e seus descendentes dominam o litoral de Florianópolis a Laguna — dá para ouvir no sotaque, ver nos barcos de pesca e comer nas cozinhas voltadas à tainha. Os alemães chegaram a partir de 1850 e construíram Blumenau, Joinville, Pomerode e o Vale Europeu. Os italianos vieram a seguir, a partir de 1875, para o médio Vale do Rio do Peixe e as cidades da Serra. Ucranianos e poloneses vieram depois, na virada do século XX, e ocuparam o interior oeste e áreas do Planalto Sul.
Este roteiro visita as quatro em cinco dias, atravessando o estado em uma diagonal aproximada do litoral ao oeste e de volta. Não é o jeito mais rápido de conhecer nenhuma tradição em separado e a quilometragem é séria: cerca de 950 quilômetros pelo circuito, quase tudo em rodovias de pista simples. O que você ganha é a fotografia honesta — que Santa Catarina não é uma cultura, mas quatro, que elas foram separadas de propósito pelo sistema imperial de concessão de terras, e que mesmo 150 anos depois uma cidade fundada por pomeranos não se parece, não cozinha e não celebra nada do jeito que uma vila açoriana a 200 quilômetros de distância. Este é o roteiro para quem lê, não para quem quer tarde de praia.
Dia 1: costa açoriana — Ribeirão da Ilha e Santo Antônio de Lisboa
Comece em Florianópolis, fundada como Desterro por açorianos em 1748, que ainda preserva duas vilas de pesca mostrando como era o litoral antes do turismo: Ribeirão da Ilha, no sul, e Santo Antônio de Lisboa, no norte. As duas ficam a 30 minutos de carro do centro. Ribeirão é a mais preservada — uma única rua principal de casas caiadas com janelas azuis, a igreja de Nossa Senhora da Lapa de 1806 no meio, e meia dúzia de restaurantes de ostras que cultivam o marisco a 200 metros da costa. Almoçar no Ostradamus é a refeição-referência (R$180 a R$240), mas os restaurantes menores ao lado, entre R$95 e R$130, servem as mesmas ostras das mesmas águas.
Santo Antônio à tarde é uma visita mais curta, no máximo 90 minutos. A vila se estende por uma única rua com a igreja de Nossa Senhora das Necessidades (1750) numa ponta e uma pequena orla na outra. É onde a tradição do boi-de-mamão, a dança popular açoriana com o boi de faz-de-conta, ainda é apresentada em festas — o pequeno museu municipal tem trajes e instrumentos. Jantar de volta ao Centro de Florianópolis, e depois dormir em qualquer um dos hotéis de faixa média da Beira-Mar Norte por R$380 a R$520. Amanhã é o dia mais longo de estrada da viagem, e você vai querer sair cedo.
Dia 2: Vale Europeu alemão — Blumenau a Pomerode
Saia de Florianópolis até as 07:30 pela BR-101 no sentido norte, e depois oeste pela BR-470 até Blumenau. São 145 quilômetros e duas horas e meia de viagem. Dedique a manhã ao roteiro a pé pelo centro histórico de Blumenau — o Museu da Família Colonial é a parada-chave, a R$12 e 90 minutos, porque explica a diferença entre o padrão de assentamento alemão (lotes cercados de 25 hectares nas Kolonien) e o padrão açoriano (aglomerados de vila em torno de uma igreja) que você viu ontem. Essa diferença estrutural é a razão de Blumenau e Ribeirão da Ilha não se parecerem em nada, apesar de estarem a 150 quilômetros uma da outra.
À tarde, dirija 30 quilômetros ao norte até Pomerode, que se diz a cidade mais alemã do Brasil e, por incrível que pareça, é. Cerca de 90 por cento da população é de origem alemã, mais ou menos um terço ainda fala o dialeto pomerano em casa, e a arquitetura é enxaimel sem aquele ar de reconstrução turística do centro de Blumenau. O Museu Pomerano e o Museu Ornitológico cobrem, respectivamente, a história local e um acervo de aves realmente interessante. Durma na própria Pomerode em uma das pequenas pousadas em torno da Rua XV de Novembro, R$260 a R$380 a diária, e coma marreco recheado no restaurante que sua pousada indicar.
Dia 3: interior italiano — Rio dos Cedros e Nova Trento
A zona de colonização italiana começa mais ou menos 40 quilômetros a oeste de Pomerode. Rio dos Cedros e Rodeio são as duas cidades mais próximas que valem uma parada, ambas pequenas (menos de 12 mil habitantes) e ambas centradas em colonos italianos que chegaram por volta de 1880 vindos do Trentino. A arquitetura é diferente das cidades alemãs — mais simples, mais em alvenaria que em enxaimel, próxima do que se veria numa vila do norte da Itália na mesma época. O almoço é polenta, salame e galinha ao molho em qualquer uma das cantinas familiares ao longo da SC-477; espere pagar de R$75 a R$120 por uma refeição séria com vinho local.
À tarde, siga para o sul até Nova Trento, 90 quilômetros de pista simples pelo Vale do Rio Tijucas que levam cerca de duas horas. Nova Trento é o centro católico de peregrinação do estado — Madre Paulina, primeira santa canonizada do Brasil, viveu ali — e o Santuário Santa Paulina, acima da cidade, atrai um milhão de visitantes por ano. É inevitavelmente turístico. A herança italiana mais interessante está nos povoados menores fora da cidade: Vígolo, Claraíba e a pequena comunidade agrícola ao redor de Aguti. Durma em Nova Trento em uma das pousadas voltadas à peregrinação por R$220 a R$340 a diária, mais baratas que as equivalentes em Pomerode porque o mercado é outro.
Dia 4: Serra italiana e as cidades do vinho — Treze Tílias e adjacências
O Dia 4 sobe a serra e vai para o interior. De Nova Trento até Treze Tílias são 220 quilômetros via Curitibanos, cerca de quatro horas pela BR-282 e SC-350. Treze Tílias é austríaca, não italiana — fundada em 1933 por colonos tiroleses sob o chanceler Dollfuss e ainda arquitetonicamente fiel ao estilo alpino austríaco, com sacadas, fachadas pintadas e telhados íngremes. É pequena (7 mil habitantes) e se caminha em 90 minutos. O Museu Municipal Andreas Thaler cobre bem a história de fundação, R$8 a entrada.
De Treze Tílias, se der tempo, siga 40 quilômetros até Piratuba para a cidade de águas termais, ou desça em direção a Videira para o tour na vinícola Perini e para as vilas italianas do médio Vale do Rio do Peixe. Isto é país do vinho — a região vinícola mais alta e fria do Brasil produz Sauvignon Blanc e Pinot Noir acima de mil metros, e as degustações saem mais em conta aqui que em São Joaquim, entre R$40 e R$80. Durma em Treze Tílias ou Videira, ambas com hotéis de faixa média entre R$280 e R$420. O jantar é uma fusão austríaco-italiana — spätzle e canederli no mesmo cardápio — que parece forçada e não é.
Dia 5: oeste ucraniano, e o fechamento do circuito
A herança ucraniana e polonesa em Santa Catarina se concentra no extremo oeste, em torno de Itaiópolis, Papanduva e Mafra, distantes demais para este roteiro de cinco dias cobrir com honestidade sem cortar outra coisa. A parada de compromisso é a pequena comunidade de Iracema, perto de Canoinhas, a 180 quilômetros ao norte de Videira, onde uma igreja ortodoxa ucraniana em funcionamento, com cúpulas em bulbo, e um centro comunitário ucraniano ainda operam. A viagem leva três horas em pista simples; a visita, 90 minutos, incluindo uma parada no centro comunitário se estiver aberto (domingos após a missa é a melhor hora). Pierogi e holubtsi ucranianos são servidos em alguns restaurantes locais por R$45 a R$70.
De Canoinhas até Florianópolis são 260 quilômetros pela BR-116 e BR-101, mais ou menos quatro horas e meia. É um dia final longo — 440 quilômetros no total — e, se parecer demais, quebre com uma noite em Joinville, outra cidade de herança alemã que arredonda a história da imigração. Joinville tem hotéis de faixa média decentes entre R$320 e R$480, e o Museu Nacional de Imigração é o único melhor acervo sobre toda a história da imigração no estado. Acrescentar uma noite em Joinville transforma isto num roteiro de seis dias, e é a versão que eu recomendaria de verdade se você tiver tempo.
O que este roteiro deliberadamente não cobre
O Contestado — a guerra civil de 1912 a 1916 entre colonos caboclos e o Estado federal — merece um roteiro próprio e não está incluído aqui, apesar de ser o capítulo mais escuro e importante da história do interior do estado. Os comerciantes libaneses e sírios que colonizaram Chapecó e Xanxerê na década de 1930 também estão ausentes; a presença deles é real, mas mais difícil de visitar como viajante temático, porque se integraram a cidades já existentes em vez de fundar novas. A colônia japonesa de Frei Rogério, uma das histórias fundadoras mais surpreendentes do estado, fica igualmente fora da rota.
O que o roteiro cobre, e cobre honestamente, são as quatro maiores comunidades fundadoras na ordem em que chegaram. Ele oferece contato suficiente com cada uma para você entender por que a culinária, a arquitetura e o calendário religioso do estado são tão variados, e por que um blumenauense e um pescador de Ribeirão podem sentir de verdade que vivem em países diferentes. Cinco dias é o mínimo; seis com Joinville é melhor; sete com uma parada apropriada no oeste ucraniano é a versão completa. Menos que isso e você está escolhendo duas comunidades e chamando de tema, o que não é a mesma viagem.
Antes de reservar
As perguntas que as pessoas fazem sobre Blumenau, respondidas com os números deste mês.
É uma viagem de carro. A rede de ônibus intermunicipais chega a Blumenau, Pomerode, Videira e Canoinhas, mas os horários de conexão são impossíveis — você gastaria dois dos cinco dias só em rodoviárias. Alugue um carro em Florianópolis. Combustível e pedágios para o circuito somam cerca de R$550 para um sedã pequeno.
De abril a junho e de setembro a novembro. O verão (dezembro a fevereiro) é quente nas cidades do interior e os trechos serranos perdem as vistas nítidas para a bruma. O inverno (julho, agosto) é confortável nas cidades, mas as estradas da Serra podem congelar; verifique as mínimas noturnas se for incluir Treze Tílias e Videira.
Em bolsões. O pomerano ainda é falado por moradores mais velhos em Pomerode e na área rural de Blumenau; o dialeto trentino sobrevive em algumas casas de Rio dos Cedros; o ucraniano é usado em cultos em torno de Canoinhas e Iracema. O português é universal e as línguas são de herança, não faladas no dia a dia pela maioria abaixo dos 40.
O centro de Blumenau foi reconstruído em estilo enxaimel de propósito e soa como cenário de patrimônio. Pomerode é mais genuinamente preservada — arquitetura, dialeto e comida ainda são tradições vivas, não produto turístico. Joinville fica entre as duas. Se você quer a cidade alemã menos performática, vá a Pomerode.