Um plano para dia de chuva na região de Florianópolis que não desperdiça o dia
Chuva batendo nas janelas de um café na Lagoa da Conceição com a lagoa ao fundo
Oito paradas cobertas ou em ambientes fechados num raio de 40 quilômetros, organizadas para você nunca esperar mais de dez minutos numa fila.
Primeiro, entenda a chuva com honestidade
Nem todo dia de chuva em Santa Catarina é igual. Uma pancada de verão à tarde dura 40 minutos e depois o sol seca tudo — não é preciso um plano, basta um almoço coberto e um livro. Uma frente fria de inverno é outra história: três a cinco dias de chuva constante a 15°C vindo do sul, fria o suficiente para tirar o banho de mar da equação e cinzenta o bastante para inutilizar qualquer dia de praia. Este plano é para o segundo caso. Confira o windguru.cz para Florianópolis pela manhã; se a previsão de swell mostrar ventos sul a 25 nós por 72 horas, aceite o dia fechado e pare de torcer.
A única coisa que você não deve fazer é ficar no hotel. Todo hotel grande em Florianópolis tem o mesmo problema em dia ruim: um lobby pequeno, uma piscina que ninguém usa e um restaurante vazio. Você acaba pedindo room service às 15:00 e sentindo que jogou o dia fora. Melhor aceitar a chuva, calçar o único par de sapatos que você trouxe que aguenta molhar, e se mexer. O plano abaixo cobre o dia inteiro, das 09:30 às 21:00, com oito paradas, todas cobertas ou em ambientes fechados, todas num raio de 40 quilômetros do centro de Florianópolis.
09:30 — Mercado Público de Florianópolis
Comece pelo Mercado Público, o mercado coberto na base do centro histórico. O prédio de 1898 tem duas alas ligadas por um pátio, e mesmo com chuva na horizontal dá para transitar entre elas sem se molhar. As bancas abrem às 08:00, mas as operações de comida no térreo esquentam por volta das 09:30, hora certa de pedir um cafezinho (R$4) e um pastel de camarão (R$14) no balcão do Box 32, a banca mais antiga do mercado. Não é armadilha turística fantasiada: é onde os advogados do tribunal a três quadras almoçam no meio da manhã.
Reserve uma hora para percorrer as duas alas. A ala leste vende peixe e camarão frescos — você não vai cozinhar, mas a exposição funciona como um verdadeiro mercado de pescados em atividade, não uma vitrine de patrimônio, e o barulho dos carregadores gritando pedidos às 10:00 é o som da cidade em movimento. A ala oeste tem cachaça, especiarias secas, queijos e frios, e os R$45 que você pode gastar numa garrafa de cachaça envelhecida cinco anos para levar para casa são uma das melhores lembranças que Santa Catarina oferece. Há dois restaurantes de verdade no andar de cima para referência futura; guarde-os para o almoço de outro dia.
11:00 — Museu Histórico de Santa Catarina
A duas quadras subindo do mercado, o Museu Histórico ocupa o Palácio Cruz e Sousa, o prédio neoclássico rosa na Praça XV. A entrada custa R$10 e a visita leva de 75 a 90 minutos. O palácio foi a residência do governador do estado até 1954 e o interior foi mantido como era — escada de mármore de Carrara, uma sala de espelhos inspirada em Versalhes em escala aproximada de 1/40, e uma série de salões de estado com mobiliário de época. As exposições em si cobrem a fundação do estado, a Guerra do Contestado e as imigrações alemã e italiana, na maior parte em português com alguns painéis em inglês acrescentados na reforma de 2019.
O prédio importa mais que o acervo. Santa Catarina não tem um grande estoque de arquitetura cívica grandiosa — a riqueza do estado é industrial do século XX, não plantacionista do XIX — e o Palácio Cruz e Sousa é um dos poucos interiores que soam propriamente históricos. Numa manhã molhada ele também fica praticamente vazio; dá para passar quanto tempo você quiser na sala de espelhos sem ninguém entrando na foto. Saia na Praça XV, que tem galeria coberta em toda a sua extensão, e caminhe uma quadra até o almoço.
13:00 — Almoço nas galerias cobertas do centro histórico
A Rua Felipe Schmidt e a Rua Trajano têm calçadas cobertas em toda a extensão e a quadra entre elas concentra três almoços que valem a pena. O self-service Chef, por quilo na Trajano, cobra R$78 o quilo — um prato razoável sai por R$45 — com feijoada de verdade às quartas e sábados. A filial do Ostradamus no centro faz um cardápio mais leve, focado em peixe, entre R$95 e R$130. O restaurante Ademir na Felipe Schmidt é a opção de almoço executivo, R$52 pelo prato do dia com a turma do tribunal. Os três aceitam clientes sem reserva e nenhum exige agendamento.
Não caminhe até os restaurantes da Beira-Mar Norte para almoçar na chuva, mesmo estando a apenas 15 minutos — o percurso é exposto, os táxis engarrafam com o tempo ruim e a comida não é boa o bastante para justificar os pés molhados. Guarde a Beira-Mar para uma noite de céu limpo. Depois do almoço, se a chuva ainda estiver forte, a próxima parada fica a 12 minutos de táxi (R$28), no Beiramar Shopping ou no Iguatemi. Se a chuva já tiver virado garoa, caminhe 20 minutos até a Ponte Hercílio Luz para uma boa olhada na ponte original fechada e na restauração de 2019.
15:00 — O único shopping que vale a pena
Shopping é a opção padrão para dia chuvoso e, na maior parte dos casos, um desperdício de tarde, mas o Iguatemi Florianópolis é exceção. O último andar tem uma livraria realmente boa (Livraria Curitiba), um cinema que exibe filmes no original com legendas em português (R$32 o ingresso, meia-entrada às quartas) e uma praça de alimentação que inclui a rede de frutos do mar Coco Bambu — não o melhor peixe do estado, mas um jantar confiável de R$110 se você decidir comer ali em vez de sair depois. Duas horas aqui rendem um filme e um café, e você sai às 17:00 pronto para a noite.
Pule o Beiramar Shopping. Fica mais perto do centro, mas é menor, o cinema é mais antigo e a praça de alimentação é mais dominada por fast-food que a do Iguatemi. Pule os outlets no caminho do aeroporto, a não ser que você tenha ido especificamente para fazer compras; são o pior uso possível de uma tarde chuvosa, porque você gasta 40 minutos de trânsito em cada sentido para chegar a um lugar pensado para quem desce de ônibus turístico. Se você não trouxe sapato de chuva, os dois shoppings têm lojas boas de outdoor onde R$180 compram um Salomon ou Merrell que aguenta o resto da viagem.
17:30 — Uma cervejaria ou um spa, dependendo do grupo
O intervalo de 90 minutos entre a tarde e o jantar é o que pega as pessoas de surpresa num dia chuvoso. Duas opções funcionam. A primeira é um tap de cervejaria — a região tem meia dúzia de microcervejarias com tap rooms cobertos, e as de São José (20 minutos de carro do centro de Florianópolis) fazem tours de 90 minutos por R$45 que terminam com um flight decente e um prato quente. A segunda é um dos day spas perto da Lagoa da Conceição, que oferecem pacotes de 90 minutos de massagem e pedras quentes por R$220 a R$340 e ficam quase vazios em dias úteis chuvosos.
A cervejaria combina com casais e grupos em que pelo menos uma pessoa esteja dirigindo; o spa combina com viajantes solo ou casais que estão na estrada há uma semana e cansados no silêncio. Ambos se marcam na manhã do dia via WhatsApp — os números estão no Google Maps e as mensagens são respondidas em menos de uma hora. O que não dá certo é tentar encaixar os dois; você acaba correndo no jantar. Escolha um, faça direito, e trate o jantar como a última parada séria do dia, não como algo secundário.
20:00 — Jantar e onde dormir
Jantar na chuva pede um restaurante com acesso coberto até o desembarque do táxi. Três candidatos. O Ostradamus principal, em Ribeirão da Ilha (R$180 a R$240 por pessoa com vinho, especialista em ostras, 30 minutos ao sul do centro), tem varanda coberta e é o restaurante-referência de frutos do mar do estado. A região da Rita Maria, perto do terminal de ferry, concentra restaurantes de peixe de faixa média entre R$95 e R$140, todos com toldos até a porta. A avenida da Lagoa da Conceição tem a oferta mais barulhenta, mas o percurso molhado entre estacionamento e porta é inevitável no extremo norte.
Durma no centro de Florianópolis se você segue viagem na manhã seguinte — os hotéis da Beira-Mar Norte ficam entre R$380 e R$620 e deixam você a 20 minutos do aeroporto. Durma perto da Lagoa da Conceição se a previsão para amanhã for melhor e você quiser ficar no lado leste da ilha para ir à praia; as pousadas dali variam entre R$320 e R$540. Não se mude para Jurerê Internacional em dia ruim — o atrativo lá é a cena de beach club, que não existe na chuva, e as diárias continuam caras do mesmo jeito.
Antes de reservar
As perguntas que as pessoas fazem sobre Santa Catarina, respondidas com os números deste mês.
Abandone o plano e vá para a praia. Uma tarde limpa na Praia Mole ou na Praia da Joaquina vale mais que qualquer museu. Guarde o mercado e o museu na manga para a próxima manhã molhada — eles também funcionam como uma meia-diária autônoma.
A caminhada pela vila pesqueira de Ribeirão da Ilha funciona na garoa se você estiver com sapato adequado — as casas coloniais ao longo da rua principal ficam bonitas na chuva e os restaurantes de ostras têm decks cobertos. A trilha da Lagoinha do Leste e o sandboard nas dunas, não; guarde os dois para dias limpos.
Uber e 99 funcionam bem, mas o preço dinâmico dispara nas frentes frias — uma corrida de R$25 pode ir para R$55 no mesmo trajeto. Táxis amarelos comuns não têm preço dinâmico, mas demoram mais para chegar. Em dias de chuva muito forte, some 15 minutos entre paradas e reserve corridas com antecedência sempre que puder.
Só pelas cervejarias de São José ou pelos outlets de Biguaçu, ambos a 20 ou 30 minutos do centro com trânsito leve. O restante do continente é residencial e industrial, sem muito a oferecer ao visitante. Fique na ilha, a não ser que tenha um alvo específico do outro lado.