Roteiro a pé de dois dias: centro histórico de Florianópolis e o sul açoriano
Casarios açorianos coloniais coloridos alinhados na orla do Ribeirão da Ilha
Dois dias, 22 km a pé, cobrindo 300 anos de Florianópolis portuguesa, açoriana e manezinha.
A premissa
Este é um fim de semana focado em caminhadas para quem quer entender Florianópolis além das praias. A cidade foi fundada em 1673 como posto colonial português-açoriano, e essa camada histórica sobrevive em dois lugares conectados, mas distintos: a malha compacta do centro em volta da Praça XV e a vila de pescadores do Ribeirão da Ilha, 25 km ao sul, na costa interior. O dia 1 percorre o centro. O dia 2, o Ribeirão e as pequenas comunidades vizinhas. Distância total: cerca de 22 km, quase todos planos, distribuídos em dois dias inteiros com almoços longos.
Não é preciso carro. O dia 1 é 100% a pé a partir de um hotel no centro. O dia 2 usa um ônibus por trecho da Lagoa ou do centro até o Ribeirão (linha 460 ou 461, R$5,20, 40 minutos) mais caminhadas dentro da vila. Se estiver hospedado na Lagoa da Conceição, some um curto ônibus ou Uber até o centro e de volta no dia 1. Orçamento total para duas pessoas em dois dias, incluindo hospedagem, refeições e ônibus: R$1.600-2.400 na categoria média.
Dia 1 pela manhã: Praça XV e o núcleo do século XVIII
Comece às 9h na Praça XV de Novembro, praça central da cidade, dominada por uma figueira de 200 anos que os florianopolitanos consideram tão emblemática quanto a catedral. A Catedral Metropolitana (construída em 1753, reconstruída em 1922) fica de frente para a praça e resolve em 20 minutos por dentro. Ao lado, o Palácio Cruz e Souza abriga o Museu Histórico de Santa Catarina (R$10, fecha às segundas, reserve 60 minutos). O palácio foi a residência do governador, e seus salões ornados, tetos pintados e mobiliário do século XIX são o acervo em si.
Caminhe 200 metros a oeste até a Alfândega, casa aduaneira de 1876 hoje ocupada por uma feira de artesanato. Dali, siga pela Rua Conselheiro Mafra até o Mercado Público (1898), o mercado coberto com peixarias, cachaçarias e mais de 20 pequenos bares no anel externo. É a parada natural de almoço até o meio-dia — Box 32 para uma boa caldeirada de tainha, ou uma das pastelarias para um pastel de camarão com cerveja, R$40-70 por pessoa. O mercado em si é um monumento vivo; percorra também os corredores internos, não só o anel de bares.
Dia 1 à tarde: Ponte Hercílio Luz e a orla
Depois do almoço, siga a pé pelo calçadão da Beira-Mar em direção à Ponte Hercílio Luz, a ponte pênsil de 1926 que liga a ilha ao continente. Está fechada para veículos desde 1991 e reabriu como passarela de pedestres em 2019 — dá para atravessar 819 metros sobre a água pelo tabuleiro de aço original, com o centro histórico de um lado e o continente de São José do outro. A travessia leva 20 minutos em cada sentido e é uma das melhores coisas grátis da cidade. O vento pode ser forte; use uma jaqueta mesmo em tardes de verão.
Volte ao lado da ilha e caminhe para o sul pela orla até o Forte Santana (1761), um pequeno forte português que hoje abriga um museu de armas (R$8, fecha às segundas, 30 minutos). Aqui termina o loop de caminhada no centro. Distância total do dia 1: cerca de 8 km. Pegue ônibus ou Uber de volta ao hotel na Lagoa, ou, se estiver hospedado no centro, descanse uma hora e vá jantar a pé. Sugestão de jantar: um restaurante de frutos do mar açoriano-brasileiro na Rua Bocaiúva, R$120-160 por pessoa, ou um por quilo a R$60 se quiser algo mais rápido.
Dia 2 pela manhã: a vila do Ribeirão da Ilha
Pegue o ônibus das 9h do centro (linha 460 ou 461) ou da Lagoa (baldeação no TICEN) para o Ribeirão da Ilha. Trajeto de 40-50 minutos. O Ribeirão é uma vila com 15 casarios coloniais açorianos do século XVIII sobreviventes, alinhados por 2 km de orla, a maioria hoje convertida em ostricarias e pequenos comércios. Comece pela igreja Nossa Senhora da Lapa (1806), uma das mais antigas em pé na ilha, e caminhe para o sul pela beira. A estrada é calma o bastante para se caminhar por ela; um passeio propriamente dito acompanha em alguns trechos.
A vila é uma comunidade produtora de ostras em atividade: Santa Catarina responde por 95% das ostras cultivadas no Brasil e o Ribeirão é o centro histórico dessa indústria. Você vai ver as balsas na baía e os galpões de seleção atrás das casas. Passe pela Casa Açoriana (pequeno museu etnográfico, R$5, abre às 10h, 30 minutos) para entender a migração açoriana de 1748-1756 que povoou a ilha. Siga caminhando até a ponta sul da vila, onde alguns restaurantes menores ficam bem na linha da maré.
Dia 2 no almoço: ostras na fonte
O almoço é o motivo pelo qual se vem ao Ribeirão. A vila tem mais de 12 restaurantes servindo ostras direto da baía — cruas, gratinadas, empanadas, em ensopados e na especialidade local, a ostra empanada. Uma dúzia de ostras frescas sai R$45-70, dependendo do tamanho e da época. Um almoço completo com sequência de ostras, peixe grelhado e acompanhamentos custa R$140-200 por pessoa com vinho. Reserve para os fins de semana — moradores do centro vão de carro e lotam as casas mais antigas. Almoços de dia de semana entram sem reserva.
A estação importa: as ostras estão no ponto de maio a outubro, quando a água é mais fria e a carne mais firme. As de verão são comestíveis, mas menos impressionantes; alguns restaurantes viram a carta para peixes grelhados e camarão em janeiro-fevereiro. Se estiver viajando no auge do verão, peça a tainha grelhada inteira (o peixe manezinho por excelência) — R$120-160 por um peixe que alimenta dois. Acompanhe com uma cachaça de alambique catarinense, R$18-30 a dose, dos pequenos produtores de Tijucas e Nova Trento.
Dia 2 à tarde: caminhada até a Freguesia do Ribeirão
Depois do almoço, caminhe mais 30-40 minutos para o sul até o povoado menor da Freguesia do Ribeirão, que recebe uma fração dos visitantes e tem algumas das casas mais antigas em pé. O caminho é plano, à beira d'água, passando por balsas de ostra e algumas praias pequenas onde dá para molhar os pés. Vire de volta no Sítio Capivaras, uma fazenda colonial de 1760 parcialmente restaurada como residência particular — só se vê por fora, mas é o conjunto rural açoriano do século XVIII mais completo da ilha. Retorne ao centro do Ribeirão por volta das 16h30.
Extensão opcional para caminhantes fortes: continue passando a Freguesia rumo a Caiacangaçu, mais 4 km, onde a estrada vira trilha à beira da baía e a infraestrutura turística desaparece de vez. Isso transforma o dia 2 numa caminhada de 12-14 km e exige táxi ou Uber de volta ao centro do Ribeirão para pegar o ônibus (R$40, 15 minutos). Não é necessário para um bom dia — o loop padrão do Ribeirão fica em 6-8 km com igreja, museu e almoço.
Onde dormir para um fim de semana a pé
Para este roteiro específico, durma na Lagoa da Conceição, não no centro histórico. A Lagoa tem restaurantes melhores para a noite, vida noturna a pé e conexão direta de ônibus tanto para o centro (dia 1) quanto para o Ribeirão (dia 2, com uma baldeação). Pousadas de categoria média a R$380-580, ou boutique a R$650-900. O centro histórico tem dois ou três hotéis de negócios (R$320-450), mas esvazia depois das 19h e oferece pouco para caminhar à noite.
Alternativa: durma uma noite no centro e outra no próprio Ribeirão. O Ribeirão tem 3-4 pousadas pequenas em casarios coloniais restaurados a R$450-650 a diária, o que permite comer ostras no jantar além do almoço e ver a vila vazia ao amanhecer antes dos bate-voltas chegarem. Isso divide a viagem em duas metades bem diferentes e recompensa quem se importa mais com atmosfera do que com praticidade. Reserve as pousadas do Ribeirão com 6-8 semanas de antecedência na alta temporada — o inventário é minúsculo.
Antes de reservar
As perguntas que as pessoas fazem sobre Lagoa da Conceição, respondidas com os números deste mês.
Em parte. A rua principal da vila é plana, tem 2 km de extensão, com trechos ocasionais de paralelepípedo. A maioria das ostricarias fica no térreo e é acessível. O museu tem um degrau na entrada. A extensão até a Freguesia é por estrada rural sem calçada — ruim para cadeira de rodas. Para quem tem problemas de joelho, foque nos 500m centrais e pegue táxi entre restaurantes mais afastados.
É possível, mas é um erro. O loop do centro precisa de 4 horas para ser bem feito com visitas a museus, e o Ribeirão precisa de 5 horas com almoço e caminhada. Juntar tudo significa correr nas duas e perder o sentido — que é ritmo lento, almoço demorado e tempo para olhar de verdade o que se atravessa. Dois dias transformam isso em viagem, não em checklist.
Sim para o loop do centro — várias operadoras fazem tours a pé de 3 horas em português e inglês, R$60-120 por pessoa, geralmente saindo às 9h30 da Praça XV. Reserve pelo posto de informação turística no aeroporto ou no centro. O Ribeirão não tem tour a pé regular; a vila é sinalizada o suficiente para uma visita autoguiada funcionar, e a equipe dos restaurantes explica o cultivo de ostras de bom grado quando se pergunta.